Caderno especial - USP 75 ANOS - O Estado de São Paulo - 24 de janeiro de 2009
História em 3 gerações
Trajetória da família Garone se cruza com a da universidade desde os anos 1930
Por Renata Cafardo
As histórias da família Garone e da Universidade de São Paulo (USP) já davam sinais que caminhariam juntas 32 anos antes da criação da maior instituição de ensino e pesquisa do País. Em 1902, Narciso Garone, filho de imigrantes, se formou na então Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia, que ficava no Bom Retiro. A faculdade - assim como a de Direito e de Medicina - foi incorporada à universidade que surgia em 1934. Naquele ano, o filho de Narciso, Wilson Garone, ingressou na primeira turma de Odontologia da USP.
Outros Garone se formaram em 1963, 1964, 1970, 1999. Todos dentistas, todos na USP. E orgulhosos em fazer parte da trajetória que completa 75 anos amanhã. Os três filhos de Wilson, hoje com 91 anos, cursaram a mesma faculdade do pai. Assim como um dos netos, Victor, que teve aulas com os tios. "Já é tradição", diz Wilson, que mesmo hospitalizado e com dificuldades na fala recebeu a reportagem do Estado.
A memória do dentista - que, ao estudar, contribuiu para a valorização de profissionais antes tidos como meros arrancadores de dentes - já não o permite contar muito do que presenciou da criação da Universidade de São Paulo. Mas esteve ativo até os 86 anos, atendendo no mesmo consultório, e casou-se cinco vezes. A mulher atual, Silvia, companheira há mais de 20 anos, é também dentista, formada na USP. "Havia muita divergência na camada superior sobre nos tornarmos universidade. Entre os alunos, não havia nada", lembra ele.
Enquanto a Odontologia era anexada à nova USP e se mantinha no mesmo endereço no centro, a Medicina passava a conviver com os estudantes da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. A unidade - que oferecia de Filosofia a Matemática, de Biologia a História - foi instalada nos porões do prédio na Avenida Dr. Arnaldo. Foi lá que os professores estrangeiros, vindos em missão ao Brasil, iniciaram o trabalho de formar a elite paulistana em um ambiente universitário.
A formatura de Wilson foi em 1937, aos 20 anos, quando também eram graduados os primeiros alunos da Filosofia. Em 1944, começou a ser construída a Cidade Universitária, na zona oeste, obra que foi interrompida e só teve os primeiros prédios concluídos em 1961. Apenas seu neto cursou toda a graduação no Butantã; os filhos alternavam disciplinas no centro e nos chamados barracões da Cidade Universitária (estruturas improvisadas feitas às pressas, mas que funcionaram por anos).
Em 1959, o primogênito do dentista, Wilson Garone Filho, hoje com 67 anos, passou em segundo lugar do vestibular de Odontologia da USP. "Nosso pai sempre foi feliz com a profissão dele, vivíamos no consultório, fazíamos até lição de casa lá", explica o filho, sobre a escolha do mesmo curso.
Na época, lembra, era USP ou nada. E não porque Wilson exigia que os filhos cursassem a melhor universidade do País. Não havia outro curso de Odontologia em São Paulo. "Estudamos para sermos os primeiros", conta Narciso, de 65 anos, o segundo filho e o terceiro da família na USP, onde hoje é professor titular. Diferentemente do atual, o vestibular no passado não exigia preenchimento de todas as vagas. Em 1955, por exemplo, sobraram 225 vagas na USP porque os candidatos não chegaram à nota mínima. Na então Faculdade de Farmácia e Odontologia eram 200 vagas disponíveis e só 133 jovens foram considerados habilitados.
"Meu irmão me fez chorar no primeiro mês de aulas", conta Sandra Garone, de 62 anos, que entrou em 1965 na USP, onde Wilson Filho já era professor. "Ele era muito rígido, não tive nenhuma proteção", lembra a dentista, que foi a percussora do uso de calças na faculdade. "Só podíamos vestir saias. Mas era tudo muito curto nos anos 60, então resolvi usar calças nas aulas de clínica", conta. "Alguns professores acharam um acinte."
Sandra estudou na USP que foi tomada por soldados da Força Pública durante a ditadura militar. Alunos foram presos; o Crusp, considerado "centro de agitação estudantil". Em 1968, seus colegas da filosofia protagonizaram o célebre conflito com alunos do Mackenzie; em 1969, com o AI-5, professores passaram a ser cassados. "Pouco se via na Odontologia. A maioria dos alunos politizados estava na área de Humanas", diz. "Lembro que os cursos passaram a ser semestrais para que os alunos não formassem grupos muito duradouros."
"Eu sempre me senti muito à vontade na USP", conta o filho de Sandra, Victor, de 31 anos, que passou na Fuvest nos anos 90. Em um Brasil democrático, as notícias sobre a universidade se concentravam nos recordes de formação de doutores, na alta concorrência no vestibular, nas greves. A Odontologia já havia se mudado para a Cidade Universitária, que Victor frequentava há tempos, ajudando a mãe a preparar aulas, apresentações, tese. "Eu digo para ele que tem dois anos para encontrar uma moça inteligente e ter um filho. Assim, a família terá mais uma geração na USP no aniversario de 100 anos", brinca o tio Wilson.
Os Garone têm mais seis dentistas, formados por outras universidades. "Qual você acha que é a conversa na mesa no Natal?" diz Wilson. "Até minha netinha de 2 anos sabe o que é palato e freio lingual."
Fonte: Jornal "O Estado de São Paulo". |